Pouco menos de 100km distanciam Belo Horizonte do distrito de São José da Serra, mas a sensação era que tínhamos viajado para longe. Para mim, aquilo era uma nova realidade e ela pedia para ser explorada. Assim começou minha primeira experiência na roça mineira com o Festival Natureza do Sabor realizado no pequeno vilarejo.

São José da Serra faz parte do Município de Jaboticatubas, na região do Circuito Turístico da Serra do Cipó. Lá, vivem pouco mais de 500 pessoas em meio à biodiversidade e os saberes tradicionais do cerrado e foi justamente a proposta do festival que tanto me atraiu: valorizar as tradições e os ingredientes locais com um festival gastronômico cultural. 

Como foi o Festival Natureza do Sabor 2019

A região do Circuito da Serra do Cipó é conhecida pelas suas cachoeiras, trilhas e vias de escalada… Paisagem deslumbrante é o que não falta, mas o Festival Natureza do Sabor nasceu para mostrar outro tipo de beleza: a culinária regional, que mistura o bioma do cerrado, a agricultura familiar e o conhecimento tradicional da comunidade. 

O evento, que aconteceu no dia 21 de setembro de 2019, contou a história da região através de rodas de conversas, oficinas, pratos típicos preparados por cozinheiros de lá e muita música. Mas acima disso, o festival contou a história das pessoas da comunidade. 

A oficina “Gosto do Cerrado” mostrou a conexão direta do bioma com as pessoas. A primeira atividade foi conduzida por Lucas Mourão da Jaca Verde PANC. Com a proposta de tocar, cheirar, provar e discutir sobre os vegetais colhidos próximos à sede do evento, foi possível perceber o quanto essas plantas, muitas vezes consideradas exóticas para as pessoas da cidade, fazem parte do dia-a-dia, da alimentação, da saúde e das memórias da comunidade. 

Depois disso, a artista Carolina Filizzola instigou o público a valorizar e preservar o bioma com criatividade, convidando todos à pintarem o que o cerrado representa para cada um utilizando tintas naturais feitas com terra e ingredientes de lá. Um trabalho lindo de conexão!

A feira continuou até o anoitecer ao som de Jane Sabino, artista independente de Jaboticatubas, e com a exposição de produtos e degustações. Como por exemplo os licores da Marinalva da Pousada Várzea da Serra feitos com frutos do Cerrado, Licuri, Jenipapo, Chapéu de Couro, Jatobá e por aí vai.

Como esperado, os pratos servidos no evento também contaram sobre a cultura local. O cozinheiro Ramonn Melo preparou uma refeição completa baseada em dois ícones da região – o Pequi e o Coco Macaúba. 

Como entrada, tapioca hidratada com suco da beterraba, recheada com folhas verdes, queijo Canastra, antepasto de abobrinha e creme de pequi. O prato principal levou óleo de macaúba na farofa que acompanhou um delicioso frango caipira com quiabo e palma, angu e salada de couve cortada bem fininha. A sobremesa desenvolvida pelo próprio cozinheiro em conjunto com Daya Gloor da Associação AMANU, foi o toque final para provar todo o sabor do Cerrado no Prato – um Bolo de Coco Macaúba e Inhame com especiarias (Pimenta de Macaco, Cravo e Canela) servida com Caramelo feito com Rapadura, Gengibre, Alfavaca e Cacau. A Pimenta de Macaco, da região conhecida como Pindaíba, traz um aroma e sabor forte do Cerrado.

Já a cozinheira Amanda Souza, desenvolveu um menu com gosto da sua infância, vivida ali mesmo em São José da Serra. A entrada foi um fubá suado com toucinho. Costelinha com palma e angu como prato principal, fechando com mousse de doce de leite com queijo meia cura produzido na região.

A palma é um cacto que raramente encontrei alguém que já tinha comido. Eu me lembro de comer isso aqui desde pequena e acho que é um trem que é a cara de São José da Serra.

Amanda Souza – sobre o prato que serviu no Festival

É importante mencionar que a parceria com a Associação AMANU – Educação, Ecologia e Solidariedade foi chave para a realização do evento, uma vez que grande parte dos ingredientes utilizados são comercializados pela rede de produtores locais na feira Raízes do Campo de Jaboticatubas.

Também houve espaço para exposição de trabalhos educacionais através de bioconstrução e agrofloresta com a equipe do Contraponto de Congonha do Norte. Além do lindo trabalho do ilustrador e autor mineiro Fernando Siqueira do ALMA ateliê de livros malcriados.

Outro ponto interessante foi a abertura do evento para expositores de outras regiões que contou com a visita de Luis Felipe do Coletivo Terra Preta apresentando azeites, cafés e queijos da região de Aiuruoca, na Serra da Mantiqueira. 

A festa se agitou ainda mais assim que os Tambores do Matição subiu ao palco. As canções do grupo da comunidade quilombola Mato do Tição, também de Jaboticatubas, resgatam os ritmos dos tambores afro-brasileiros, como Congado, Candombe e a Folia de Reis. Coisa linda de se ver e ouvir!

Aguardando a próxima edição do Natureza do Sabor

O Festival é anual e itinerante dentro dos 7 municípios do Circuito da Serra do Cipó. Este ano foi na varanda do Bar do Bitaca em São José da Serra, mas vale a pena acompanhar e conferir as redes sociais da organização para saber como será a agenda dos próximos anos.

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